domingo, 16 de agosto de 2009

Por ora.

Sentia-se embevecida pela água da chuva, que de tão fria a fazia sentir mil agulhas encravadas por todo o corpo, uma mistura onírica de prazer intenso e dor profunda e os olhos fechados colocavam a necessidade da pele em primeiro lugar, a pele, aquela parte da gente que absorve tudo, por onde tudo entra. Mas já não importava, e essa é a grande questão. Muitas coisas em sua vida já não importam mais. Resplandecia seu rosto triste, ainda que absorta na sensação do deleite de tudo. agonizava-se sozinha, no meio do nada escuro, por entre a corrente incessante de lágrimas medrosas e confusas que escorriam devagar. Devagar. Aos poucos o frenesi louco foi dando lugar à plenitude bastarda. Aquela esperança simulada que às vezes nos faz pensar que estamos salvos. Suou frio e teve vontade de acabar-se em sentimentos lágrimas e medo. Ser aquela estrela, aquela ali no céu, brilhante e cheia de vida, mas que cujo destino frio é transformar-se em gás e depois desvanecer-se em nada. Mandavam-na reerguer-se, levantar o olhar, seguir em frente mas sua alma queria só o aconchego da desilusão, a dor consentida e permitida, sem revoltas dessa vez. Submissa, clara e sem muitas palavras, só dor.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Poesia sem fim

Pela graça de sentir-se rodopiar, girou mais umas cinco voltas, deixou que a corda ficasse firme, dura, toda contorcida até o fim, lá no finalzinho perto do galho da árvore que a segurava acima do chão. E a cada volta, seus pés pareciam mais distantes. O medo envolvia, a excitação do descontrole contagiava, e o coraçãozinho de criança pequenino como só, pulava em ritmo de ciranda com alegria genuína. Naquele dia, ou melhor, naquele momento tão breve ela contemplou o tudo, sentiu-se toda. Vestido estampado de desenhos minúsculos esvoaça em círculo, fazendo mostrar as pernas, sentir o vento passar pelas coxas magricelas. Não sabia onde estava, isso é certo, mas era onde tudo era mais completo mais cheio de si mesma. O ritual durou apenas poucos minutos e sabia-se que por algum motivo, por entre a linha do tempo e do espaço, talvez através daquilo a que chamamos razão aquele momento duraria ainda menos, menos, cada vez menos, pouco sobraria - até que então se perderia por completo. Quem sabe, aliás se ao lugar daquele contentamento efêmero viria logo atrás uma outra parte do momento, a parte inversa oposta contrária, aquela porção da verdade tão essencial quanto sua metade, temerosa e vazia? O vazio. O nada. E antes fosse tão poético quanto parece, antes fosse tudo tão ingênuo. Nada além da morte poderia vir após a sensação intensa da vida. Experienciou então a agonia de um quarto agressivamente branco frio como uma calota de gelo. Tudo o que havia em si se subverteu, tudo, pulou para fora num salto perfeitamente sincronizado. E foi quando pôde perceber-se casca. Tudo de si olhando para si própria - até aquilo que julgava impossível ser - o encontro irônico e perverso do criador com sua obra. Podia tocar com a ponta dos dedos tudo exatamente tudo o que construíra até então e podia se sentir estremecer. Como fosse tudo aquilo muito pútrido, firmou os olhos assustados na cena hostil à sua frente e desejou com toda a força destruir cada pedaço de si na tentativa de não ser. Festival de poses e vícios. Caos a céu aberto: aniquilar cruelmente o que fosse insuportavelmente correto ou não, tudo o que pudesse ter sido bom ou ruim para outros e para si. E o olhar mudo oscilando do branco ao lilás, observava todos os recortes e seus ídolos pré-adolescentes e fazia daquela angústia mais uma forma de gritar pra dentro o que devia sair. Cansaço sem reação, doía em silêncio. O mundo girando devagar e a alma vagando lenta em cólera. Sozinha. Passados três minutos e o mundo pareceu leve. Todo o medo converteu-se em êxtase, pôde rapidamente contemplar o divino, escutar o Universo, escorrer como um rio. Presa em sua liberdade, assemelhava-se àquela árvore copada de um verde reluzente e delirante, e à magnificência da Natureza com seus gemidos e das formas e do luar, o cheiro da terra e das lágrimas emocionadas. O mundo refletia a perfeição de ser amor e eterna inocência e de poder ser recebido pelos seus sentidos aguçados, que obervavam meticulosamente e apalpavam o fluxo de vida somados aos movimentos de todas as espécies, vindos de todos os seres, animados ou não.
Celebrava mais uma vez sua incrível aptidão de girar em torno de si própria - e viver e morrer simultaneamente - em poucos minutos. No teatro mágico de sua vida viu-se novamente refletida no espelho quebrado, estilhaçado em mil partes. Alcançava outra vez a dor e a alegria de ser múltipla, de ser tudo, de ser humana

terça-feira, 31 de março de 2009

O que há entre o sim e o silêncio.

A dor ingênua e penetrante do anti-séptico autoaplicado. Solidão cortante da redoma de cristal, vidraça manicomial e o estupro da liberdade. Você ouviu e calou com os olhos, e todos entenderam o motivo. Não foi possível renunciar a carne trêmula e a visão embaçada, condição louca e sagrada de quem sente por sentir. Doeu e vai doer de novo - repetidas vezes, quase sempre do mesmo jeito. C'est la vie; é assim: o peito à mostra por baixo de toda a histeria controlada e o medo quente passivo calando alto e se fazendo ouvir, pulsando e embebedando as regras. Tolice e cegueira, a incandescência sorrateira do que em nós é penumbra. Penumbra desgarrada de sua sombra. Obscuridade pueril que engatinha e rasteja imunda com a barriga no chão. Dor, mas não compaixão. Fazer doer para ver sangrar por dentro e sentir o azul celeste do fluido romântico que carrega os amantes nos ombros. E depois lamber tudo e satisfazer as mais lascivas necessidades da alma, negar decisivamente a cabeça já puída, a mente ácida suicida. Aceitação da mais sublime forma de ser gente, e desejar cair de boca nos outros, incorporar tudo o que puder ser ruminado, fagocitar o cheiro, absorver a cor, saborear os desejos íntimos e delicadamente sombrios que vão além do que se pode sentir em si mesmo. Ser você no outro, deixar-se possuir plenamente. Encravar as unhas macias no peito à frente e rasgar suave para ver escorrer lá de dentro o mesmo belo caos que se veria sair daqui.
Assumir enfim a excelência daquele único olhar que não teve a pretensão de ver
só apreciar.



segunda-feira, 9 de março de 2009

Vernissage

Angústia que chega, arrebata machuca borbulha e adormece faz doer e cresce, o coração aflito pequeno, inflama reclama angústia que clama que chama e que ama. amor que reflete e remete a culpa, a dor angústia que sangra e mancha e desmancha e dói e corrói, amor que não pára não sara, não sai. Angústia sorrateira maldita e enferma, doente de gozo, o pudor a falta a loucura, só pode ser ela, a loucura. De repente não sente não demora não pára não separa, e tudo se espalha e se esvai, dormência e demência, um saco sem fundo, soluço profundo não deixa, calado. olho sem olhar, cabeça parindo pensando e vomitando, palavras dilemas poemas e suor. Ardência dos vivos a penitência, dos que tem sede e que tem medo, dos covardes, os aflitos malditos cabritos, rebanho do vício da paixão do sim e do não, a ambivalência de uma nação que vive aqui bem dentro de si. Si, eu nós vós, angústia senhores, incerteza da voz. Ambíguo o umbigo no meio, do lado o mundo parado e no fim, o início.
Angústia morta-viva quando vem pede luva de pelica.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

À ele.


Tudo que eu senti já nem cabe mais aqui
e para você, o muro
para mim
apenas um quarto escuro.

De repente me senti pequena
meus pés nem tocam o chão
e para mim, o gozo
para você, meu coração

Minhas mãos trêmulas
um dia tiveram segurança
e para você, donzelas
e para mim, lembrança.

Eu e meus pensamentos
de novo no mesmo dilema
e para mim, loucura
para você, esse poema

Fatos embalados numa redoma de cetim
e para o céu, você
e para você
a mim.

O abraço, um passo
pequenino espaço
dura só um minutinho
todo esse compasso

que desemboca no fim.

A foto que eu olho
tem você do meu lado
e lá fora, meu bem
já não é mais assim

E a minha criança
que chora e dança
e às vezes se cansa
disso tudo

ruim

A cabeça enlouquece
e tudo permanece
nem uma lágrima desaparece
de dentro de mim.

Não dependo de nada
não dependo de mim
não dependo mais tempo
não dá mais
mas dá sim.



domingo, 30 de novembro de 2008

Peso leve

Quando cheguei, lá estava ele olhando com os olhos de quem sente mas não diz
e dentro de si passavam-se tantas coisas
uma verborréia lhe vinha à cabeça e contagiava, subia, envolvia, machucava
e não ouvia-se sequer uma única palavra.
Descobrira aquilo que não queria ver, que não podia ver - estamos todos condenados a solidão?
Eram por esses caminhos que passava sua mente pulsante, dolorida.
A vida é em todo o seu desenrolar frágil demais
a viúva que uiva para lua cheia, o jovem protestante que se apaixona por ela, o casal que morre de amor
a crueldade dos estupradores, as crianças prodígio, as velhas avós que um dia foram somente mães. A polidês das pequenas tragédias cotidianas. E a Comédia, aquela fumacinha rosada, que nos observa e nos deprecia com seu sorriso irônico de quem sabe que estamos condenados à vida
que continuaremos com aquilo que somos até a morte
Nos consumiríamos ardorosamente: eu ele e quantos fossem
viveríamos então o impulso rápido da vida
com amor, com veemência
[aquilo a que costumavam chamar liberdade
A poesia se tornaria um hábito, porque a nossa visão se desvaneceria para então vivermos somente o que importa, o que não é digno aos olhos e tão pouco ao coração
E a cada dia lentamente conheceríamos aquilo a que chamam vontade, a Vontade como a coisa em si, como a inexplicável necessidade de se sentir, de transbordar, de fazer do que não é
algo que está na iminência de ser, e o será para sempre.
Esperavam todos que esse senhor me fizesse sentir menos vontade de viver; e também eu o esperava a julgar que me conheço (e não o faço)
Mas esse novo tango argentino fez-me despertar para uma realidade mais delineada, ainda que digna de tudo o que não faz parte dela
ainda que regada de sonhos
a ilusão que me tomou e possuiu
e para a qual estou condenada até o fim.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Janela




Pela primeira vez que resolveu dizer algo, optou por dizê-lo baixinho

o problema foi que ela escutou e longe do que se esperava, ao invés de discutir

abaixou o olhar e dos olhos escorreram lágrimas

lágrimas não são para manisfestar dores, ao contrário do que muitos pensam

lágrima é escudo.
Discurso sem palavras de quem vive
neste mundo que nos apresenta
todo dia

e foi por isso, que por muito, continuou chorando

choro bom, choro ardido
choro daqueles que vêm não se sabe de onde, mas faz sentir por um minuto que estamos lá

não por perto

mas do lado de dentro
de tudo isso.

" e não tenho crueldade, mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu." PN